A casa da Mãe Joana é uma casa muito engraçada. Tem de tudo. A família da Matriarca é diversificada. Não é de relação consanguínea. A Matriarca é uma balzaquiana estéril, que adota filhos de acordo com as conveniências e necessidades. Pode-se dizer que é uma família de agregados.
O curioso é que, de vez em quando, há conflitos entre os filhos. Os mais achegados da mãe balzaquiana costumam se valer do posto e exagerar nos privilégios. Claro que não são todos. Esta história é longa.
Por ser uma família de agregados, escolhidos a dedo, a Matriarca recruta os mais influentes no meio social. Geralmente, são aqueles que gozam de prestígio. Ocupam cargos considerados estratégicos na sociedade. Mas esse perfil não basta à Matriarca. Usa-se, na escolha, algo mais. Ela sabe que subordinado precisa ser vocacionado.
Almas questionadoras, por mais inteligentes que sejam, não é uma boa escolha. Não costumam ser serviçais. São candidatas natas à rebeldia. Não são nada domesticáveis. Os domesticáveis gostam de ração de qualidade e, quase sempre, locupletam-se. A obesidade logo se escancara denunciando o apetite de seus corpos e mentes.
De um tempo pra cá, os exageros tornaram-se muito escancarados. Ganhou espaço na mídia e redes sociais. Claro, tudo isso ocorreu a contragosto dos filhos seletos da Matriarca. Talvez tenham exagerados tanto nos privilégios e seus apetrechos, que o esquema de intimidação e cooptação não conseguiu conter o grito abafado de socorro. Encurralados pelas ameaças, restavam-lhes os sussurros.
Os peritos, na prática das ameaças, costumam se valer do manto sagrado das instituições basilares da cidadania. O discurso do Poder costuma ter eco sedutor. Em nome da ordem e progresso, buscam-se resultados. Nesse contexto, vale a formula de que os “fins justificam os maus”. Sabem bem fazer uso dessa lição de Maquiavel.
Por outro lado, como a Matriarca perdeu a rainha, pedra angular do rei no jogo de Xadrez, a situação está, paulatinamente, se complicando. A cabeça de um dos bispos está a prêmio. A sobrevivência dela depende da uma sacada de mestre da Matriarca. Está difícil acontecer, mas não se pode descartar.
Se antes os trunfos estavam nas mãos dela, hoje, estão com os filhos excluídos de seus afetos, estratégias e táticas. Resta à Matriarca contar com um cochilo deles. Como ensina um sábio ditado popular: “Uma boa pitada de modéstia no agir e no portar-se é como canja de galinha, não faz mal a ninguém”.
Enfim, como bem ensina a arte do Xadrez: o jogo só termina quando o vitorioso pega, sem pedir licença, o rei (pedra) do adversário, com aquele sorriso educado, elegante e irônico, vagarosamente o declina sobre o tabuleiro. Quem viver, verá!
Rubens Galdino da Silva – Jornalista (MTB/SP 32.616) e professor