Adamantina em Debate – Sergio Gabriel Seixas
*Recomendado ouvir utilizando fones de ouvido.
Ser Profeta?
Ser profeta hoje!!! Não, não e não. Por que e para que? Ser profeta… Ah! Existe? Sim, sim; não e não. Ser profeta! Não aceito, diz a consciência moribunda… Profeta, profeta: Não fabrica; sim, fabrica… Que ganharia eu com isso? Tudo, tudo; nada e nada… Mas, afinal, se for assim Quem ousa lugar neste mundo, Contra os abutres e aves de rapina? Contra os que semeiam a morte antes do tempo? Não, não… Não pode ser assim!!! Profeta: não-profissão; sim, sonho-paixão Então, então! Que serei? Louco, louco!!!
Medo
Ter medo, nada de estranho nisso! Próprio de quem vive; de quem canta, chora e ri À arte de tudo ser. Basta nascer, tudo começa Como um sonho mal acabado. Respira-se pela vida em morte Numa luta que se desenrola. No cotidiano, o comum; Neste, o inusitado de cada um, Num único e mesmo fim. Assim, deveras, o vento sopra, A casa cai E a vida vai…
Existência
Existência é a nuvem, em seu tênue vagar, Cheia de mistérios que de tudo se ri, Em sua brisa, o efêmero anúncio das coisas Que se desvelam no instante vivido. Da alegria ao trágico, basta um momento. O grito de espanto diante do desencanto Soa em sua melodia como uma canção perdida, Numa voz que se emudece ante o consumado. Assim, como a nuvem, a existência se expira. Num horizonte qualquer, o último abandono, De um desejo relegado à própria sina Eis o paradoxo que em tudo nos fascina.
Poesia
Poesia, como metáfora De fragmentos dispersos A realidade, como imagem De uma unidade perdida… Assim, o poeta se posta: Do fixo ao inerte, Transita seu mundo, Como se tudo, o nada fosse. Da paixão ardente, A arte gélida, Apenas um salto. Numa forma qualquer, Eis o tear de palavras De esperança e dor…
Do poeta
Do corpo, nasce o amor; Do amor, a fantasia; Da fantasia, o sonho; Do sonho, a angústia; Da angústia, a dor; Da dor, a poesia; Da poesia, a prosa; Da prosa, o poema; Do poema, o canto… E assim a vida acontece, Como quem viesse do acaso No descaso da morte…
Meu canto
Oi, morena dos dias de lá, Meus pensamentos pairam no ar. Oi, morena do lado de lá, Meus sentimentos cantam de cá. Deixei a viola, não posso cantar, Meus versos aqui não vou mais rimar. Sonho meu do lado de lá, Não posso na vida deixar de amar. Oh, morena, como a vida voa! Sem saber pra onde… O canto que faço, não é à toa Venha depressa me abraçar Saudade, morena, viola de espera Eis o compasso que me desespera Que saudade! Venha pra cá, Morena, do lado de lá.
Soneto à Vida
Sou a lua, o sol e as estrelas do firmamento. Gosto do tempo e de sentir seu cheiro Deleito-me pelo simples prazer de sentir; Não faço nada, senão apenas sentir. Sentir meu medo, ante o passado incerto, Respirar com meus pensamentos mitigados, Olhar com as vísceras as coisas da razão, Tocar com a imaginação as asas do tempo. A lua, o sol e as estrelas do firmamento São instantes da minha vida, apenas percebidos, Extensão somente do meu corpo projetado. Sinto o cheiro, ora doce, ora amargo, Não faço questão, pois sentir é consumir-se No sol, na lua, nas estrelas do firmamento.
Sonata à Amada
D`um olhar perdido, o incessante; D´uma pergunta qualquer, o encontro; Da surpresa interessante, o ousado; Do aceite hesitante, o momento. Da provocação, a palavra “safado”; Do hilariante, a espera excitante; Do sim delirante, o gesto ofegante; Das vísceras, o orgasmo extasiante. Dos toques suaves, a cumplicidade; Do olhar maroto, o desvelar discreto; Das coisas íntimas, o encanto. Assim, na morada do tempo, a vida acontece; Nas alcovas, o amor que se renova; Desse jeito próprio de ser, o amante.
Pensando em você
Pensar em você é sempre querer estar na espera, Sem saber do que. Pensar em você é estar na dor De uma lembrança muito sofrida. Pensar em você é querer saber Sobre o que não se pode ter. Pensar em você é desejar ser sapo-príncipe Na lagoa da vida. Pensar em você é sonhar ser olhos de saudade Na dor da quimera…