{"id":1152,"date":"2026-03-01T17:38:59","date_gmt":"2026-03-01T20:38:59","guid":{"rendered":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/?p=1152"},"modified":"2026-03-01T17:39:23","modified_gmt":"2026-03-01T20:39:23","slug":"fantasmas-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/2026\/03\/01\/fantasmas-da-memoria\/","title":{"rendered":"Fantasmas da mem\u00f3ria&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>Levantei-me de manh\u00e3. Depois de fazer minha higieniza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, fui \u00e0 mesa da cozinha. N\u00e3o havia ningu\u00e9m. Ainda era muito cedo. Ao olhar sobre a mesa, vi um espelho. Fiquei surpreso. Pensei, com meus bot\u00f5es:<br>\u2014 Ser\u00e1 que algu\u00e9m invadiu a casa durante a noite?<\/p>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o havia ind\u00edcios, preferi aceitar a ideia de que, talvez, de forma inadvertida, eu mesmo tivesse colocado o espelho sobre a mesa na noite anterior. Ali\u00e1s, esquecer-se dos feitos imediatos \u00e9 uma caracter\u00edstica das pessoas idosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo me conformei com a r\u00e1pida conclus\u00e3o a que cheguei. Apressei-me a observar a mim mesmo no espelho, tentando me autodefinir. N\u00e3o demorou para que a imagem refletida me incomodasse. Algo parecia destoar. Ent\u00e3o pensei:<br>\u2014 A idade chegou, e a fatura do tempo tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi, antes mesmo de ter lido Plat\u00e3o, que \u00e9 da natureza do espelho mentir sutilmente ou confundir. Quase sempre, tudo de forma bem-educada. Nada agressivo, que pudesse despertar meu sentimento de impensada rejei\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o inconformismo estava instalado e instigante.<\/p>\n\n\n\n<p>O desejo de me livrar dele veio imediatamente. Impotente para fugir de mim mesmo, mergulhei na tela das recorda\u00e7\u00f5es. Passei a observar com mais aten\u00e7\u00e3o os detalhes da imagem refletida. Curioso \u00e9 que cada detalhe guardava a pujan\u00e7a da minha vida jovial.<\/p>\n\n\n\n<p>A juventude \u00e9 um pr\u00eamio que desconhece o pr\u00f3prio valor. Nela, a mentira do desejo exerce for\u00e7a quase irresist\u00edvel. Criam-se verdades como se j\u00e1 estivessem l\u00e1 antes do nosso nascimento. Nesse cen\u00e1rio de lembran\u00e7as, o espelho passa a funcionar como um juiz silencioso. Ele reflete cenas da vida nas quais as rugas do tempo quase sempre geram sentimentos de arrependimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentimentos do qu\u00ea? Amb\u00edguos, como sempre. Dores, \u00e0s vezes, pelos estragos ou pelas decis\u00f5es que nunca foram tomadas. Operam \u00e0 semelhan\u00e7a de um torturante tribunal de foro \u00edntimo. Pressionado por olhares e vozes altivas, de tom acusat\u00f3rio, o desejo muda de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, a consci\u00eancia de mim para comigo mesmo, aturdida pelos fantasmas da autoacusa\u00e7\u00e3o, passa a buscar sa\u00eddas. O espelho come\u00e7a a funcionar como fonte de sonhos \u00e0 procura de uma zona de conforto, lembran\u00e7as rec\u00f4nditas da vida uterina. Assim, sem abandonar sua posi\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria, o espelho ilumina a imagina\u00e7\u00e3o. P\u00f5e em movimento o gosto pela manipula\u00e7\u00e3o como ponte de salva\u00e7\u00e3o. As circunst\u00e2ncias passam a instrumentalizar t\u00e9cnicas de auto e h\u00e9tero manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, inicia-se a manipula\u00e7\u00e3o de mim mesmo como fonte de pacifica\u00e7\u00e3o. Trata-se de um jogo de regras aleat\u00f3rias, ditadas pela \u00e9tica das circunst\u00e2ncias. Nesse jogo, movido pelas cores do acaso, a mentira transforma-se em narrativa da verdade \u2014 sustentada n\u00e3o pela veracidade, mas pela necessidade de convencimento, a servi\u00e7o dos interesses de quem dela faz uso.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, pacificado com meus pr\u00f3prios fantasmas, num estalo quase m\u00e1gico, meus olhos se desviam do reflexo no espelho. Viro-o do avesso. Respiro fundo e, mansamente, expiro o ar t\u00f3xico que inflara meus pulm\u00f5es. Aplico um col\u00edrio nos olhos, tomo meu caf\u00e9 da manh\u00e3 e sigo em frente como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida retoma seu cotidiano. O olhar no espelho foi apenas um descuido, um cochilo e press\u00e1gio de uma noite mal dormida. Afinal, ainda acredito que a vida vale a pena. Para que me torturar por algo que n\u00e3o tem reparo, e nunca ter\u00e1? O passado se apaga sem nada pagar. Basta deix\u00e1-lo estar como est\u00e1. Nesse contexto, a ignor\u00e2ncia de mim mesmo funciona como um santo rem\u00e9dio, capaz de curar definitivamente a dor insana de uma alma ofegante.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, n\u00e3o se pode esperar grandes mudan\u00e7as de um tribunal de foro \u00edntimo. Apenas espasmos espor\u00e1dicos, como os de uma refei\u00e7\u00e3o mal digerida. Que sejamos capazes de reduzi-lo a um exerc\u00edcio terap\u00eautico para a leveza da nossa fr\u00e1gil alma. Talvez esse seja um caminho sereno: abra\u00e7ar os inc\u00f4modos fantasmas e caminhar em frente com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Rubens Galdino da Silva<\/p>\n\n\n\n<p>Professor na FEMA e Jornalista<\/p>\n\n\n\n<p>Doutor em Hist\u00f3ria pela Unesp\/Assis<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Levantei-me de manh\u00e3. Depois de fazer minha higieniza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, fui \u00e0 mesa da cozinha. N\u00e3o havia ningu\u00e9m. Ainda era muito cedo. Ao olhar sobre a mesa, vi um espelho. Fiquei surpreso. Pensei, com meus bot\u00f5es:\u2014 Ser\u00e1 que algu\u00e9m invadiu a casa durante a noite? Como n\u00e3o havia ind\u00edcios, preferi aceitar a ideia de que, talvez, de forma inadvertida, eu mesmo tivesse colocado o espelho sobre a mesa na noite anterior. Ali\u00e1s, esquecer-se dos feitos imediatos \u00e9 uma caracter\u00edstica das pessoas idosas. Logo me conformei com a r\u00e1pida conclus\u00e3o a que cheguei. Apressei-me a observar a mim mesmo no espelho, tentando me autodefinir. N\u00e3o demorou para que a imagem refletida me incomodasse. Algo parecia destoar. Ent\u00e3o pensei:\u2014 A idade chegou, e a fatura do tempo tamb\u00e9m. Aprendi, antes mesmo de ter lido Plat\u00e3o, que \u00e9 da natureza do espelho mentir sutilmente ou confundir. Quase sempre, tudo de forma bem-educada. Nada agressivo, que pudesse despertar meu sentimento de impensada rejei\u00e7\u00e3o. Ainda assim, o inconformismo estava instalado e instigante. O desejo de me livrar dele veio imediatamente. Impotente para fugir de mim mesmo, mergulhei na tela das recorda\u00e7\u00f5es. Passei a observar com mais aten\u00e7\u00e3o os detalhes da imagem refletida. Curioso \u00e9 que cada detalhe guardava a pujan\u00e7a da minha vida jovial. A juventude \u00e9 um pr\u00eamio que desconhece o pr\u00f3prio valor. Nela, a mentira do desejo exerce for\u00e7a quase irresist\u00edvel. Criam-se verdades como se j\u00e1 estivessem l\u00e1 antes do nosso nascimento. Nesse cen\u00e1rio de lembran\u00e7as, o espelho passa a funcionar como um juiz silencioso. Ele reflete cenas da vida nas quais as rugas do tempo quase sempre geram sentimentos de arrependimento. Sentimentos do qu\u00ea? Amb\u00edguos, como sempre. Dores, \u00e0s vezes, pelos estragos ou pelas decis\u00f5es que nunca foram tomadas. Operam \u00e0 semelhan\u00e7a de um torturante tribunal de foro \u00edntimo. Pressionado por olhares e vozes altivas, de tom acusat\u00f3rio, o desejo muda de dire\u00e7\u00e3o. A essa altura, a consci\u00eancia de mim para comigo mesmo, aturdida pelos fantasmas da autoacusa\u00e7\u00e3o, passa a buscar sa\u00eddas. O espelho come\u00e7a a funcionar como fonte de sonhos \u00e0 procura de uma zona de conforto, lembran\u00e7as rec\u00f4nditas da vida uterina. Assim, sem abandonar sua posi\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria, o espelho ilumina a imagina\u00e7\u00e3o. P\u00f5e em movimento o gosto pela manipula\u00e7\u00e3o como ponte de salva\u00e7\u00e3o. As circunst\u00e2ncias passam a instrumentalizar t\u00e9cnicas de auto e h\u00e9tero manipula\u00e7\u00e3o. Dessa forma, inicia-se a manipula\u00e7\u00e3o de mim mesmo como fonte de pacifica\u00e7\u00e3o. Trata-se de um jogo de regras aleat\u00f3rias, ditadas pela \u00e9tica das circunst\u00e2ncias. Nesse jogo, movido pelas cores do acaso, a mentira transforma-se em narrativa da verdade \u2014 sustentada n\u00e3o pela veracidade, mas pela necessidade de convencimento, a servi\u00e7o dos interesses de quem dela faz uso. Depois, pacificado com meus pr\u00f3prios fantasmas, num estalo quase m\u00e1gico, meus olhos se desviam do reflexo no espelho. Viro-o do avesso. Respiro fundo e, mansamente, expiro o ar t\u00f3xico que inflara meus pulm\u00f5es. Aplico um col\u00edrio nos olhos, tomo meu caf\u00e9 da manh\u00e3 e sigo em frente como se nada tivesse acontecido. A vida retoma seu cotidiano. O olhar no espelho foi apenas um descuido, um cochilo e press\u00e1gio de uma noite mal dormida. Afinal, ainda acredito que a vida vale a pena. Para que me torturar por algo que n\u00e3o tem reparo, e nunca ter\u00e1? O passado se apaga sem nada pagar. Basta deix\u00e1-lo estar como est\u00e1. 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Rubens Galdino da Silva Professor na FEMA e Jornalista Doutor em Hist\u00f3ria pela Unesp\/Assis<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-1152","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1152"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1153,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1152\/revisions\/1153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}