{"id":405,"date":"2024-08-25T07:24:35","date_gmt":"2024-08-25T10:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/rubens.jor.br\/?p=405"},"modified":"2024-08-25T07:24:37","modified_gmt":"2024-08-25T10:24:37","slug":"casa-da-mae-joana-na-terra-do-faz-de-conta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/2024\/08\/25\/casa-da-mae-joana-na-terra-do-faz-de-conta\/","title":{"rendered":"Casa da M\u00e3e Joana na terra do &#8220;Faz de conta&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 um ditado popular muito explorado para dizer como funcionam as leis no Brasil.&nbsp; Tem origem no Brasil Imperial. Com a condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds independente, era necess\u00e1rio alinhavar a pr\u00e1tica pol\u00edtica e administrativa \u00e0s expectativas da comunidade internacional, em especial do Reino Unido, que era um grande parceiro comercial. Uma das exig\u00eancias dos ingleses era a de acabar com a escravid\u00e3o negra no Pa\u00eds do \u201cfaz de conta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o Parlamento brasileiro, pensando nas vantagens das boas rela\u00e7\u00f5es comerciais, editou normas de combate \u00e0 escravid\u00e3o, com puni\u00e7\u00f5es aos s\u00faditos transgressores. No fundo, o objetivo da ado\u00e7\u00e3o nada tinha a ver com a mudan\u00e7a da realidade social. O objetivo era o de apenas atender as demandas do Reino Unido. &nbsp;Da\u00ed o famoso ditado: \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d. Somos uma cultura amante das apar\u00eancias, at\u00e9 nas cordialidades, como bem concluiu S\u00e9rgio Buarque de Holanda.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se foram 200 anos. Pouco, ou quase nada mudou. H\u00e1 uma enciclop\u00e9dia de normas, que s\u00f3 existe na biblioteca de vitrine. Na hora de aplic\u00e1-las, fica a sensa\u00e7\u00e3o estranha de que tudo beneficia os plantonistas do poder. Florestan Fernandes, referindo-se aos ideais republicanos gravados na Bandeira Nacional, fez um brilhante coment\u00e1rio: \u201cOrdem, para quem est\u00e1 em baixo; progresso, para quem est\u00e1 em cima\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tem funcionado. Quem paga a conta, quase sempre, \u00e9 quem est\u00e1 em baixo. H\u00e1 um crivo social seletivo cruel. Da\u00ed a famosa frase, \u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds s\u00e9rio\u201d, dita originalmente pelo diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho ao jornalista Lu\u00eds Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris no contexto da Guerra da Lagosta. Ela virou jarg\u00e3o, quase sempre invocada quando o assunto \u00e9 moralidade p\u00fablica. Ali\u00e1s, a referida frase tem sido atribu\u00edda equivocadamente a Charles de Gaulle, ex-presidente da Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem, voltando \u00e0 Casa da M\u00e3e Joana, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. A casa tem Estatuto e Regimento. Quase sempre, s\u00e3o aplicados de acordo com as conveni\u00eancias das circunst\u00e2ncias. A l\u00f3gica que impera \u00e9 aquela da propaganda do cigarro \u201cVila Rica\u201d, protagonizada pelo campe\u00e3o brasileiro da Copa de 70 no M\u00e9xico, Gerson: \u201cO importante \u00e9 levar vantagem\u201d. Esse moto passou para hist\u00f3ria como a \u201cLei de G\u00e9rson\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, para garantir os resultados das vantagens na Casa da M\u00e3e Joana, a m\u00e1quina funciona no esquema de hierarquiza\u00e7\u00e3o de cargos, privil\u00e9gios e sal\u00e1rios. A Matriarca da Casa sabe cuidar bem disso. Assim, acaba cooptando e ajeitando os interesses de cada filho dileto. O que importa \u00e9 a sobreviv\u00eancia do Bispo para garantir as nomea\u00e7\u00f5es paroquiais e as respectivas c\u00f4ngruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos outros filhos \u201c<strong><em>persona non grata<\/em><\/strong>\u201d, devem se contentar com as migalhas que caem \u00e0 mesa. Se n\u00e3o est\u00e3o contentes, n\u00e3o tem problema. Est\u00e3o livres para desembarcar noutros portos, com seus sonhos na mala. Afinal, a Casa da M\u00e3e Joana n\u00e3o \u00e9 para sonhar e, sim, viver de cabe\u00e7a baixa como ovelha para o matadouro. A ordem \u00e9 a de preservar os interesses da Matriarca, sem pudor nem escr\u00fapulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, a chicotada dos filhos capachos, perseguindo ou retaliando, opera bem. E como d\u00f3i! D\u00f3i no corpo e na alma. Reclama\u00e7\u00f5es n\u00e3o faltam. A humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 a voz de comando de quem n\u00e3o tem argumentos plaus\u00edveis. Afinal, usam esse esquema por se sentir imunes e impunes, claro, debaixo da capa sagrada da Matriarca.&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima jogada, a Matriarca conseguiu importante avan\u00e7o na recupera\u00e7\u00e3o do Superbispo com a decisiva ajuda da submissa deusa Minerva. Ali\u00e1s, bola antecipadamente cantada no jogo do Bingo. Assim, por enquanto, ningu\u00e9m est\u00e1 autorizado a mexer com ele. Permanece gozando suas merecidas f\u00e9rias \u201ccoloniais\u201d, sem ser importunado. Claro, o tempo \u00e9 a grande arma na m\u00e3o da Matriarca. Agora \u00e9 o momento de conferir a pr\u00f3xima jogada. O jogo continua e as expectativas s\u00e3o grandes. Depois dessa, ser\u00e1 que o Superbispo vai cair? O tabuleiro ainda reserva muitas jogadas. Quem viver, ver\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rubens Galdino da Silva<\/strong>, <strong>Jornalista (MTB\/SP 32.616) e professor<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um ditado popular muito explorado para dizer como funcionam as leis no Brasil.&nbsp; Tem origem no Brasil Imperial. Com a condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds independente, era necess\u00e1rio alinhavar a pr\u00e1tica pol\u00edtica e administrativa \u00e0s expectativas da comunidade internacional, em especial do Reino Unido, que era um grande parceiro comercial. Uma das exig\u00eancias dos ingleses era a de acabar com a escravid\u00e3o negra no Pa\u00eds do \u201cfaz de conta\u201d. Assim, o Parlamento brasileiro, pensando nas vantagens das boas rela\u00e7\u00f5es comerciais, editou normas de combate \u00e0 escravid\u00e3o, com puni\u00e7\u00f5es aos s\u00faditos transgressores. No fundo, o objetivo da ado\u00e7\u00e3o nada tinha a ver com a mudan\u00e7a da realidade social. O objetivo era o de apenas atender as demandas do Reino Unido. &nbsp;Da\u00ed o famoso ditado: \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d. Somos uma cultura amante das apar\u00eancias, at\u00e9 nas cordialidades, como bem concluiu S\u00e9rgio Buarque de Holanda. J\u00e1 se foram 200 anos. Pouco, ou quase nada mudou. H\u00e1 uma enciclop\u00e9dia de normas, que s\u00f3 existe na biblioteca de vitrine. Na hora de aplic\u00e1-las, fica a sensa\u00e7\u00e3o estranha de que tudo beneficia os plantonistas do poder. Florestan Fernandes, referindo-se aos ideais republicanos gravados na Bandeira Nacional, fez um brilhante coment\u00e1rio: \u201cOrdem, para quem est\u00e1 em baixo; progresso, para quem est\u00e1 em cima\u201d. Assim tem funcionado. Quem paga a conta, quase sempre, \u00e9 quem est\u00e1 em baixo. H\u00e1 um crivo social seletivo cruel. Da\u00ed a famosa frase, \u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds s\u00e9rio\u201d, dita originalmente pelo diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho ao jornalista Lu\u00eds Edgar de Andrade, correspondente do Jornal do Brasil em Paris no contexto da Guerra da Lagosta. Ela virou jarg\u00e3o, quase sempre invocada quando o assunto \u00e9 moralidade p\u00fablica. Ali\u00e1s, a referida frase tem sido atribu\u00edda equivocadamente a Charles de Gaulle, ex-presidente da Fran\u00e7a. Bem, voltando \u00e0 Casa da M\u00e3e Joana, fica a sensa\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. A casa tem Estatuto e Regimento. Quase sempre, s\u00e3o aplicados de acordo com as conveni\u00eancias das circunst\u00e2ncias. A l\u00f3gica que impera \u00e9 aquela da propaganda do cigarro \u201cVila Rica\u201d, protagonizada pelo campe\u00e3o brasileiro da Copa de 70 no M\u00e9xico, Gerson: \u201cO importante \u00e9 levar vantagem\u201d. Esse moto passou para hist\u00f3ria como a \u201cLei de G\u00e9rson\u201d. Deste modo, para garantir os resultados das vantagens na Casa da M\u00e3e Joana, a m\u00e1quina funciona no esquema de hierarquiza\u00e7\u00e3o de cargos, privil\u00e9gios e sal\u00e1rios. A Matriarca da Casa sabe cuidar bem disso. Assim, acaba cooptando e ajeitando os interesses de cada filho dileto. O que importa \u00e9 a sobreviv\u00eancia do Bispo para garantir as nomea\u00e7\u00f5es paroquiais e as respectivas c\u00f4ngruas. Quanto aos outros filhos \u201cpersona non grata\u201d, devem se contentar com as migalhas que caem \u00e0 mesa. Se n\u00e3o est\u00e3o contentes, n\u00e3o tem problema. Est\u00e3o livres para desembarcar noutros portos, com seus sonhos na mala. Afinal, a Casa da M\u00e3e Joana n\u00e3o \u00e9 para sonhar e, sim, viver de cabe\u00e7a baixa como ovelha para o matadouro. A ordem \u00e9 a de preservar os interesses da Matriarca, sem pudor nem escr\u00fapulos. Para isso, a chicotada dos filhos capachos, perseguindo ou retaliando, opera bem. E como d\u00f3i! D\u00f3i no corpo e na alma. Reclama\u00e7\u00f5es n\u00e3o faltam. A humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 a voz de comando de quem n\u00e3o tem argumentos plaus\u00edveis. Afinal, usam esse esquema por se sentir imunes e impunes, claro, debaixo da capa sagrada da Matriarca.&nbsp; &nbsp;&nbsp; Na \u00faltima jogada, a Matriarca conseguiu importante avan\u00e7o na recupera\u00e7\u00e3o do Superbispo com a decisiva ajuda da submissa deusa Minerva. Ali\u00e1s, bola antecipadamente cantada no jogo do Bingo. Assim, por enquanto, ningu\u00e9m est\u00e1 autorizado a mexer com ele. Permanece gozando suas merecidas f\u00e9rias \u201ccoloniais\u201d, sem ser importunado. Claro, o tempo \u00e9 a grande arma na m\u00e3o da Matriarca. Agora \u00e9 o momento de conferir a pr\u00f3xima jogada. O jogo continua e as expectativas s\u00e3o grandes. Depois dessa, ser\u00e1 que o Superbispo vai cair? O tabuleiro ainda reserva muitas jogadas. Quem viver, ver\u00e1! Rubens Galdino da Silva, Jornalista (MTB\/SP 32.616) e professor<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","footnotes":""},"categories":[13,12],"tags":[26],"class_list":["post-405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas-jornal-assis","category-jornais","tag-casa-da-mae-joana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=405"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":406,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/405\/revisions\/406"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubens.jor.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}